Comendo na casa do Hobbit

Por Marcelo Katsuki

A porta não é redonda, como chegamos a imaginar nas semanas que antecederam nosso jantar n’O Leão Vermelho. Mas a casa reserva mistérios como passagens secretas, móveis de infinitas gavetas, um portal energético, torneiras surrealistas e… localização desconhecida.

Só recebemos o endereço 20 minutos antes do horário marcado, via sms, enquanto aguardávamos numa bucólica pousada em São João da Boa Vista. Tanto mistério faz um vizinho acreditar que o local seja usado para a prática de feitiçaria. E é quase isso, porque tudo o que se segue é envolto em ludismo e de total encantamento.

 

Tocamos o sino. Gabriel Vidolin nos recebe, recolhe celulares –não é permitido seu uso durante o jantar– e após as boas vindas, dá início ao ritual. O salão tem apenas uma mesa, construída pelo próprio chef, assim como quase toda a marcenaria existente na casa.

 

O comensal não sabe o que vai degustar: todo o menu é preparado no dia, de acordo com a disponibilidade dos agricultores parceiros e as restrições alimentares de cada mesa. Não há vinhos nem drinques alcóolicos, para que não haja interferência no efeito das tinturas e florais usados na execução dos pratos.

 

O que se segue é uma sequência de 24 pratos (representando as 24 horas do dia) em quatro etapas (pelas quatro fazes da lua) que são meticulosamente criados para surpreender com nomes como Romarias, O Outro Lado da Lua e Caixa de Costura. O menu, intitulado “Jamais me Abandone” começa com um consomé umami com ervas, uma linguicinha com menta sobre um pequeno pastel, tudo para despertar os sentidos. É sua versão para a Sopa de Pedra.

O jantar continua com pratos onde você desmonta origamis para comer éclairs de gorgonzola com pólen, abre baús de palha que escondem pãezinhos doces com espinafre, tomate e queijo de cabra até chegar aos principais, com capeletti in brodo, polenta com cogumelos e linguicinha e painço (sim, comida de passarinho) servida com o naco de frango mais gostoso que você vai comer em sua vida. Antes de mudarmos de ambiente, cálices de ‘lágrimas’.

 

A etapa seguinte é a mais perturbadora: som alto, sabores extremos, shots de cachaça super gelada com essência de eucalipto, torpor. É quase um choque receber na sequência delicadezas como um diminuto suspiro com sabor intenso de iogurte e um creme de iogurte com calda de damasco e flor de laranjeira.

O jantar termina em uma sala com passagem secreta pela biblioteca com um bolo de abóbora com chocolate, bombons, biscoitos, chás e digestivos. É um momento de acolhimento, numa sala toda de madeira com luz tênue e alaranjada que um dia  habitou o imaginário de quem já sonhou com avós que partiram e contos de fadas.

 

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A proposta d’O Leão Vermelho é única mas sua ousadia não é gratuita: Gabriel é um jovem chef de 24 anos  que já passou por grandes cozinhas como a do El Bulli e a do Mugaritz na Espanha. No Brasil cozinhou no paulistano D.O.M. e no Le Pré Catelan, no Rio.

No Mugaritz, ficou famoso na equipe por deixar trilhas com pedrinhas até seu quarto no alojamento dos cozinheiros, para que os duendes pudessem encontrá-lo –estória que ele desmente, mas sei não…

 

O restaurante tem apenas uma mesa e atende quatro pessoas por jantar. As reservas para os finais de semana estão esgotadas até o final do ano, com vagas apenas em algumas quintas ou sextas-feiras.

Mas a boa notícia é que Gabriel está vindo para São Paulo cozinhar com outra jovem cozinheira, a chef Manu Buffara (do Restaurante Manu, de Curitiba) no Espaço Gourmet do Vino! em São Paulo nessa quarta-feira, dia 21. Uma boa oportunidade para conhecer o trabalho desses dois novos talentos da cozinha brasileira.

 

Almoço de domingo (aqui pode fotografar!)

Quem reserva o sábado n’O Leão Vermelho, pode fazer uma dobradinha marcando um almoço com receitas de família preparadas por Gabriel ao preço de R$ 65 por pessoa (mais R$ 25 se incluir chá, petit fours e licores). No final de semana em que estivemos, o almoço acabou sendo realizado excepcionalmente fora do restaurante, no sítio do fornecedor de queijo. Um visual de tirar o fôlego.

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Vista do deque da fazenda Ypiacá-eté, que produz os queijos de cabra para o Gabriel

 

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 Queijos fresquinhos da fazenda. Pães feitos na manhã, pelo Gabriel

 

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Linguine com as incríveis linguicinhas feitas pelo próprio Gabriel

 

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Risoto de cogumelos e ervilhas tortas

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 Cordeiro guisado com ervas

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 Bolo de abóbora com chocolate e biscoitos

 

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Brownie de chocolate para o café

 

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Aqui, o guerreiro chef-maître-garçom-pia-horticultor-marceneiro Gabriel, degustando um dos pratos do almoço. Afinal, Hobbit também é filho de Deus.

 

Serviço do jantar Manu Bufara e Gabriel Vidolin no restaurante Vino!
Rua Professor Tamandaré de Toledo, 51 – Itaim – Tel.: (11) 3078-6442
Dia 21 de agosto de 2013 às 20h (quarta-feira)
Preço R$ 199 (inclui 8 preparos, harmonização com vinhos, água, café e tx. de serviço)

Serviço do restaurante O Leão Vermelho
Localizado em São João da Boa Vista, a 220 km de São Paulo
O endereço é mantido em segredo, revelado durante o processo de reserva pelo telefone (019) 3633-3514 (atendimento de terça à sexta-feira, das 14h00 às 17h00) ou através do e-mail: contato@oleaovermelho.com 


Valor do jantar: R$ 365 (inclui 24 pratos, água, chá e chocolates)
Valor do almoço de domingo: R$ 90 (receitas de família. Inclui chá, petit fours e licores)