O manifesto da comida

Por Marcelo Katsuki

Sala do Bolo de Rolo, onde são projetados filmes em 360º contanto a história do ‘food design’

Como Penso Como une comida, design, história, poesia, música e tecnologia propondo um questionamento. Ou vários. Com um admirável trabalho de pesquisa iniciado há cinco anos, Simone Mattar realiza essa interessante exposição no Sesc Pompeia até o dia 8 de setembro. Corra, antes que acabe.

 

O universo do food design está ali, distribuído em ilhas de conteúdo com vídeos, uma sala sensorial com aromas e sons e na divertida sala Bolo de Rolo, espiral como o doce pernambucano, onde um filme que retrata o panorama do food design é apresentado em projeção de 360º.

 

Mas o ponto alto da mostra é a degustação realizada no restaurante montado dentro do galpão, com uma bem equipada cozinha onde trabalham 27 chefs liderados pelo Juca (foto). Essa degustação de nove pratos custa R$ 50 e acontece duas vezes ao dia, mas já está com todos os ingressos esgotados.

 

Trata-se de uma experiência cerimonial de forte apelo cênico que convida a uma reflexão da comida como agente ativo evidenciando também sua importância na construção da identidade brasileira. E você vai se surpreender com os sabores e técnicas empregadas para conseguir o resultado desejado por Simone. Vem comigo.

 

A degustação começa com o prato Grande Poder, onde luminárias comestíveis feitas com filigrana de mandioca dão luz a um pato no tucupi com farinha ovinha e a um croquete líquido de tacacá. Uma ode à mandioca.

 

Detalhe da luminária comestível feita com mandioca.

 

A Cabeça Bispo: um prato que repensa a gastronomia a partir do Manifesto Antropofágico, com cabeças feitas com sopa e mousse de sardinha com molho oriental, em referência à lenda do Bispo Sardinha, comido pelos índios Caetés no século XVI

 

Detalhe da cabeça, muito gostosa por sinal. Ao fundo, o manifesto, também em papel comestível

 

O Sonho Real foi inspirado no Baile da Ilha Fiscal, o último baile do Império no Brasil, em 1889. Sonho recheado com bacalhau sobre um travesseirinho de porcelana e coroado com uma telha de alho

 

Durante a degustação, Simone Mattar (ao fundo) conversa com os comensais e fala sobre os pratos

 

Ar de Preces é o prato inspirado nas comidas de santo do Candomblé. São três patuás feitos em goma negra comestível recheados com comidas para Iemanjá, Ogum e Exú. No centro, uma esfera que deve ser rompida concentra fumaça aromatizada com cravo, canela e casca de obi. Sob ela, um acaçá feito com milho branco presente tem todas as oferendas

 

Peripécias de Bode no Reino dos Bacanas traz arroz cateto com paleta de bode glaceada, jerimum, queijo coalho e manteiga de garrafa, além de farofa de paçoca de pilão. O prato vem dentro de uma marmita de alumínio em forma de mandacaru, confeccionada pelo mesmo senhor responsável pelo restauro das peças da Sé. A base lembra um charque, mas trata-se de uma peça de ônix, do Rio Grande do Sul

 

Ossos do Ofício homenageia as mulheres de Jardins, comunidade do Mato Grosso do Sul, que trabalham com a escultura em ossos bovinos. O prato tem barriga de porco sobre creme de limão e muitas flores comestíveis

 

Tudo pronto para soltar a primeira das sobremesas na cozinha montada dentro do galpão

 

A Preço de Banana é inspirado em Carmem Miranda e questiona a imagem de um país “vendido a preço de banana”. Sobre a bela escultura de porcelana, uma banana ouro feita de mousse de chocolate vem recheada com doce de banana e coberta com canela dourada, numa apresentação impecável

 

Conflito é inspirado na Festa do Divino e representa a influência católica na comida brasileira. A estampa é toda impressa em chocolate comestível (você tem que lamber o prato) e o fogo é feito de chocolate com pimenta

 

A degustação termina com o Tabuleiro Brasileiro que traz mousse de amendoim em forma de Paçoca Amor com embalagem comestível, assim como a renda de fruta e um café. Quitures resgatados da infância e do imaginário popular.

 

 

Como Penso Como – Sesc Pompeia – Galpão
R. Clélia, 93 – Água Branca – Tel. (11) 3871-7700.
Grátis para visitação à exposição. Ingressos para a degustação esgotados.